sábado, 19 de abril de 2008

We versus 1984



Num futuro que não sabemos se é distante ou não, num mundo de vidro e aço, no Um Estado regido pelo Grande Benfeitor, onde todos se vestem de branco e a invidualidade é uma coisa rechaçada, praticamente inconcebível, encontramos D-503, que nos narra uma sombria história de amor vivida num mundo onde liberdade é sinônimo de caos e horror.
We, escrito pelo russo Yevgeny Zamiatin entre 1920 e 1921, permanece uma história atual com sua mensagem de esperança e como alerta para os horrores de ditaduras e governos totalitários.
No começo, as semelhanças são muitas com 1984, livro escrito pelo inglês George Orwell em 1948. O mundo futurístico, onde a privacidade é inexistente e tudo é controlado pelo governo, centralizado numa figura quase mítica (em We, o Grande Benfeitor; em 1984, o Grande Irmão), tudo isso é comum a esses livros. No entanto, em We, ao contrário do que há em 1984 (onde a personagem podia consumir álcool - um gim descrito como viscoso que sempre me previniu de experimentar gim na minha vida) e o Admirável Mundo Novo, onde as pessoas consumiam a soma, uma espécie de droga que deixava todos calmos e "felizes" (prozac ring a bell?), a população somente pode recorrer ao sexo como válcula de escape e, mesmo assim, mediante os "cupons rosa", que permitem o fechar de cortinas e a relação sexual, com controle do estado.
O mundo descrito por D-503 em We é iluminado pela luz do sol. O clima é controlado e nunca há chuva ou tempestades. Imaginei o Um Estado quase como Atlântida, a cidade dentro de uma redoma de vidro. Há um muro (the green wall) que separa a civilização "perfeita" da natureza, dos animais, de tudo o que é selvagem. As crianças, apesar de geradas e paridas pelas mulheres, são propriedade do Estado. Assim, se uma mulher engravidar sem autorização, deve ter a criança e morrer. Mas claro, no início do livro, é totalmente impensável que alguém faça alguma coisa sem autorização.
D-503 é um matemático do Estado que está construindo o Integral, uma nave espacial, e que inicia um diário a fim de enviar um relato sobre sua civilização perfeita aos seres de outros mundos.
Em 1984 temos Winston Smith funcionário do Ministério da Verdade, cuja função é reescrever e alterar dados de acordo com o interesse do Partido. Winston questiona a opressão que o Partido exercia nos cidadãos. Se alguém pensasse diferente, cometia crimidéia (crime de idéia em novilíngua) e fatalmente seria capturado pela Polícia do Pensamento e era vaporizado. Desaparecia. Em WE temos a Máquina do Benfeitor, que é também chamada de câmara de gás.
Enquanto em 1984, Winston critica o regime; em WE, D-503 é fervoroso defensor do Um Estado e da vida "feliz" que ele leva. Quando ele começa a questionar as coisas, passa a viver em conflito interno, acha que está doente, pois desenvolveu uma "alma".
1984 inicia sua história após a Terceira Guerra Mundial, enquanto WE começa após a Guerra dos 200 anos. Em We temos o Dia da Unanimidade, enquanto em 1984 temos os Dois Minutos de Ódio, momentos criados para que a população preste homenagens a seu governante uno e à vida no regime de "felicidade".
Eu não quero entrar em detalhes para não estragar a história, mas o que eu concluí foi que, apesar das muitas semelhanças entre WE e 1984, 1984 é um livro muito mais sombrio, que passa uma sensação de opressão muito maior do que WE. Creio que George Orwell, com quase toda a certeza, inspirou-se em WE para escrever 1984, mas ele conseguiu ir além e redigiu uma obra prima.
WE me lembrou muito o filme THX1138, primeiro filme escrito e dirigido por George Lucas, em 1971, com um Robert Duvall bem novinho.
Alguns trechos de We para atiçar a curiosidade (publicarei o resto depois):
"Eu devo ser inteiramente franco: mesmo NÓS ainda não encontramos um solução absoluta e precisa para o problema da felicidade. Duas vezes por dia, das 16 às 17 horas, e das 21 às 22 horas, o organismo único e inteligente que formamos se separa em unidades celulares, essas são as Horas Pessoais designadas pela Tabela. Nessas horas você verá persianas baixas, alguns estarão andando pela avenida, e ainda outros, como eu, estarão em suas mesas. Mas eu confio que - e você poderá chamar-me de idealista e sonhador - eu confio que mais cedo ou mais tarde NÓS conseguiremos incluir essas Horas Pessoais na fórmula geral. Um dia esses 86.400 segundos também constarão de nossa Tabela de Horas".
"Bom, deixe-me contar sobre o Dia da Unanimidade, esse maravilhoso feriado. Eu sempre amei este dia, desde minha infância. Parece-me que para NÓS esse dia tem o mesmo significado da 'Páscoa' dos antigos. Eu me lembro que, na véspera deste dia eu preparava uma espécie de calendário de horas, apenas para ir riscando-as: uma hora mais perto, menos uma hora para esperar... Se eu tivesse certeza que ninguém veria, honestamente, eu carregaria este calendário até hoje, contando quantas horas faltam para que chegue amanhã, quando eu verei - mesmo que à distância...
Amanhã verei o espetáculo que é repetido ano a ano, e mesmo assim é sempre novo, fresco como a brisa da manhã: o mágico cálice da harmonia, os braços erguidos em reverência. Amanhã é o dia da eleição anual do Benfeitor. Amanhã NÓS colocaremos de novo nas mãos do Benfeitor as chaves da impenetrável fortaleza de nossa felicidade.
Naturalmente, este dia nada tem a ver com desordem e a desorganização das eleições dos antigos, quando - que coisa absurda! - o resultado das eleições não era sabido com antecedência. Construir um Estado sobre eventualidades imprevisíveis, cegamente - o que poderia fazer menos sentido? E, mesmo assim, parece que levou séculos até que os homens compreendessem isso".
"There is no final revolution. Revolutions are infinite".

6 comentários:

Bia disse...

Olá!
Sim, sim..
Eu fiz regime e alguns (poucos, admito) exercícios...fui numa endocrinologista q me passou um regime, em 1 mês perdi os 4 quilos. Se vc quiser te passo a dieta!

little_blue_sheep disse...

:)

fiquei com vontade de ler!
*****

G.D. disse...

MUITA vontade de comprar e ler!!

No final do semestre farei um debate com duas das minhas turmas de alunos de Processo Penal I em que o tema vai circular entre "1984" e "O Processo" (Kafka).

Quem sabe no semestre que vem o livro indicado nao seja "We"...??

Virgínia disse...

G.D., no primeiro WE do meu texto tem link pro livro em português, no site da Cultura. Mas tá meio carinho. Ideal seria achar em algum sebo. O livro em inglês que eu comprei tá bem mais em conta.

Gabriel Gama disse...

1984 é um dos melhores livros que já li. Li em umas duas noites, de tanto que ele te prende à história. Admirável Mundo Novo não li ainda, mas li Contraponto, do Aldous Huxley também, e é muito bom. Cara doidao.
Não li We, mas vi THX e achei muito chato. Mas adoro essas distopias.

Abraço!

Lívia Araújo disse...

Vica,
parece um livro interessantíssimo. Esse tipo de ficção me dá frios na espinha, principalmente por me dar conta de que algumas coisas vão mostrando seus sinais atualmente. Alguns filmes, como o "Filhos da Esperança" (não lembro o nome da autora do livro), parecem sugerir uma idéia de futuro que, apesar de assustadora, é muito verossímel, tbm.