terça-feira, 22 de abril de 2008

Falência múltipla


Eu ia começar dizendo que "éramos 6", mas nunca fomos 6. Antes, no início, éramos vários: pai, mãe, filhas, tios, primos e primas, mais primos, mais tios, tias-avós, bisavó... Tínhamos natais e páscoas e reveillons movimentados, muitos presentes, muitas risadas... então divórcios e falecimentos... viramos 4, basicamente: eu, minha irmã, minha mãe e meu avô. Depois fomos 5 por alguns anos: meu avô casou de novo (ele era viúvo). Depois que meu avô faleceu minha própria mãe declarou que nossa família havia chegado ao fim. Me senti livre, por um lado, pois aparentemente ela me liberou de qualquer responsabilidade com essa declaração, já que não éramos mais uma família. Por outro lado, eu já falei milhões de vezes o quanto a morte do meu avô me dói e essa frase também doeu, claro.
A verdade é que antes disso a família já estava se desintegrando... eu saí de casa em 2001. Lá se vão 7 anos. Eu não me arrependo, não mesmo. Foi difícil e eu passei muita coisa. Poucos amigos sabem o que eu vivi nesse tempo, mas pelo menos eu tenho a certeza de que tudo que eu fiz e conquistei foi por mérito próprio, e da maneira mais difícil.
Hoje, eu senti que falta pouco para a desintegração total, já que a minha irmã se mudou para o Espírito Santo. Ficamos eu e minha mãe. Não posso dizer que ela, eu e o meu marido sejamos uma família. Amo a família dele, mas ainda não a sinto como minha família. Ele diz que a nossa família somos eu e ele e eu fico com medo da responsabilidade. Penso em divórcio, claro. Eu, filha do divórcio, que vi tantos divórcios na "família". Meu marido, ele também, filho do divórcio. Talvez a gente possa fazer diferente. Talvez a gente vá fazer diferente, mas eu tenho um certo medo disso. Minha mãe disse que talvez se mude pro Espírito Santo, então imagino que a gente vá se ver pouco. O que me deixou sentindo uma profunda solidão. Tudo bem, isso é uma bobagem, considerando que com mãe e irmã aqui eu me sentia sozinha de qualquer jeito. Não adianta nada ter pessoas por perto com as quais tu não podes contar. Pessoas que não te compreendem e não te aceitam são pessoas com as quais tu não pode contar. O que me parece tão fácil para os outros, pra mim sempre foi tão difícil, tão difícil...
Antes eu dizia que me sentia nômade, sem rumo e sem apoio. Me mudei tantas vezes... eu mudei tantas vezes, tudo o que eu pensava, sentia, imaginava, nada me fez ver onde eu estou agora. E também não me sinto apta a imaginar o que vem por aí. Espero apenas conseguir fazer melhor.

11 comentários:

Carol disse...

Ai, guria... eu tenho medo de sair de casa justamente por isso. Sei que um dia isso vai acontecer, mas me dou tão bem com os 2 lados da minha família que sequer penso em me afastar deles. Claro, não quer dizer que sair de casa signifique se afastar dos seus. Mas um pouco eu acho que sim. Minha família nunca teve divórcios e nem morte de parentes próximos, ela ainda está inteira, intacta. Por isso tenho muito medo do dia que chega para todos. Aproveito minha família ao máximo, almoços, jantares, festas... Como a família da gente... só a família da gente. O passo seguinte é formarmos nossa própria família com nosso marido, filhos, pets e por aí vai. É um passo e tanto. Ainda não me sinto pronta pra isso, sabe... it's complicated.
Beijos!!!

A Autora disse...

Puxa, Vica, tu não sabe o quanto eu me identifiquei com este seu post! Não sou casada, mas acho que justamente é o fantasma do divórcio que me impede de dar um passo em direção ao casamento.

E pode acreditar quando digo que acredito em ter pessoas por perto e não poder contar.

Mas, olha, se tem uma coisa que eu aprendi e que me mantém seguindo adiante é pensar que o que não te derruba te faz mais forte.

Bjs

natalia. disse...

Sair da casa dos pais sempre é difícil, mesmo quando eles continuam por perto e dão todo o apoio necessário. Eu saí da casa dos meus aos 17 anos e ainda hoje sinto saudades de algumas coisas.

Mesmo quando não se é filha do divórcio e acredite que a nossa família é unida e, na maioria das vezes, presente, acho que sempre se pensa em fazer melhor. Acho que é o mínimo, querer não repetir os erros.

E tu escreves tão bem...

Carol disse...

pois é, vica.
sou filha do divórcio. embora meus pais tenham se separado de fato quando eu já era bem grandinha, não tenho como negar o impacto que isso causou na minha personalidade.
minha família nunca foi exemplo de união, infelizmente.
e a minha filha é fruto de uma união mal-sucedida que findou-se poucos meses após o nascimento dela.

mas te entendo. só que não dá pra viver com medo, né? por anos tive medo de iniciar um relacionamento pra não sofrer quando ele terminasse. o resultado disso é que hoje sou uma solteirona sem amor e sem muito o que esperar dos homens.

a vida não é tão difícil, sabe. mas às vezes nós a fazemos muito complicada.

beijos

carol_rock4.blogger.com.br

Gabriel Gama disse...

Tem gente que é casada, não se divorcia e é mais infeliz do que tu pensas. Divórcio não é necessariamente uma coisa ruim e família unida não é necessariamente uma coisa boa. O importante é, como tu mesma falaste, ter em quem contar, não importa onde.
Talvez essa tua capacidade de mudar tanto seja algo que te protege, e talvez tu deva aproveitar muito essa capacidade.
Abraço.

Cacá BH disse...

olha vica....
eu tb passo um pouco por isso....
eu queria ter uma família perfeita, mas na verdade isso não existe....
sabe, vc tem seu marido... procure ser feliz ao lado dele e não fica pensando nessas coisas que te deixam agunstiadas, como divórcio...
pensa só que vcs vão ser felizes sempre....
beijos...

Dani disse...

Será que vou ser mais uma a dizer que este post disse tudo de..mim?
Não fui filha do divórcio. Fui da orfândade..existe esta palavra? Enfim..órfã de um, depois do outro..e isso me fez uma solitária.
O que eram 3 ficou 1..e isso pesa. Ahh se pesa!
Sei bem o que é ter família e não poder contar. Depois das perdas..perdí a parte família de ambas as famílias...quanta família e nenhuma na real.
Mas, agora sou eu e o marido..e os dogs...e só. Se basta não sei...achoq eu preciso de mais tempo prá responder isso.
Beijos Vica

Madureira disse...

essa menina é personagem de livro, só pode ser. e de algum clássico.

Virgínia disse...

Eu queria responder a cada um dos comentários com a atenção que eles merecem, mas isso daria outro post. Eu sei que tem gente casada que é extremamente infeliz. Eu não sou contra o divórcio, mas na maioria das vezes ele é devastador.
Dani, orfandade deve ser ainda mais devastador, sinto muito, muito mesmo.
Gabriel, o mago, disse:"Talvez essa tua capacidade de mudar tanto seja algo que te protege, e talvez tu deva aproveitar muito essa capacidade", exatamente o que a astróloga me disse hoje na leitura do meu mapa... hehehehe! Obrigada pelos comentários!

G.D. disse...

NOSSA!

Que texto bonito e carregado (emocionalmente).

Nao posso dizer muita coisa sobre o tema, porque agora que estou morando sozinho a 4 horas de distancia de Porto Alegre percebo que minha experiencia anterior de morar sozinho (dois anos atras) a uns 23 minutos a pe da casa de meus pais foi um SIMULACRO.

Tua historia parece um GIGANTE "nao te fresqueia" destinado alguns que PENSAM que enfrentaram algumas barras...

Virgínia disse...

O objetivo do texto não foi esse, mas realmente eu acho que tem gente que se fresqueia demais. Pra tu ter idéia, quando eu saí em 2001, fui morar num JK (quarto/sala-cozinha-banheiro) com mais duas amigas. Eu dormia no chão num colchão rasgado. A gente andava tão na pindaíba, que queimou o chuveiro no inverno e ficamos duas semanas tomando banho gelado (alguém aí lembra como foi f... o inverno de 2001???), daí tive que implorar pra minha mãe um chuveiro novo... que ela deu muito a contragosto e o pai da minha amiga instalou, também na má vontade...