sábado, 26 de janeiro de 2008

O Passado

Primeiro, eu gostava dele, achava que ele tinha que se livrar mesmo dela. Louca, psicótica, pedante, mergulhada em auto piedade. Depois, eu gostava dela, achava-a madura, inteligente, perspicaz, e ele um covarde, um bundão. Agora, que estou quase chegando ao final (minto, estou na página 307 e o livro termina na 478), estou odiando os dois, e temendo por uma reconciliação que, na minha opinião, seria como a morte do meu anti-herói Rímini. Preciso terminar de ler para poder assistir ao filme.
Mas este argentino (que não tem nome de argentino), Alan Pauls, é um puta dum escritor. Ele descreve umas coisas com uma propriedade que é quase como se ele as tivesse inventado.
"O drama de todo ciumento patológico: seqüestra seu objeto de amor e o confisca do mundo, mas na solidão do cativeiro, como um colecionador louco, embeleza-o com um capricho e uma paciência de taxidermista, de modo que, no final, quando o trabalho está pronto e o objeto do amor é, finalmente, a boneca deslumbrante e perfeita que o ciumento sempre quis que fosse, o objeto de amor caba de escovar os dentes, amarra os cadarços dos sapatos, acaba sua xícara de café, beija o ciumento e, para sua estupefação, sai para o mundo - e sai belo, irresistível, rejuvenescido, como se a devoção, os cuidados maníacos e tudo aquilo em que o ciumento patológico confiava para garantir sua posse exclusiva agora só lhe garantissem que em breve, muito em breve, irá perdê-lo" (p. 162).


"Estavam juntos, juntos talvez como nunca antes, porque, além do amor, o que os reunia nesse momento era o mesmo transe de incredulidade e espanto que reúne, em meio a uma viagem de avião, os desconhecidos que vira, a cabeça ao mesmo tempo e descobrem que uma asa está pegando fogo" (p. 221).


Sofía e Rímini

"Esses homens que as mulheres detectam, seduzem, encerram em apartamentinhos de três cômodos e transformam em pais de família, esses homens que depois, com o tempo, percebem que essas mulheres com quem estiveram a vida inteira são umas perfeitas estranhas e nunca souberam nada sobre eles, nunca, nada, começando pelo básico, quem eram eles, quem eram de verdade, o que os fazia felizes, o que os deixava doentes, o que os enlouquecia de alegria, do que queriam fugir, com que paraísos sonhavam, e então morrem, e o médico diz 'infarto' ou 'aneurisma', mas na realidade morrem de amargura..." (p.259).

9 comentários:

madureira disse...

acho que o negócio é parar de ler esse blog. aí, quem sabe, possa voltar pra minha antiga e pacata listinha de livros. já atravessei um amor nos tempos do cólera, agora vai ser essa aqui. (muito estranho, comentar com a moça on line).

dilemmas disse...

nossa, esse livro deve ser muito bom.
adorei os trechos, principalmente o primeiro. muito bom mesmo!

:*

Dani disse...

Nossa, mto interessante mesmo!
A parte do ciúme é absolutamente perfeita.
Me empresta depois que terminar?
Beijos

Carol disse...

Me interessei tb!

Carol disse...

muito tri...

quero ler tb...

rafael disse...

Bacana encontrar alguém lendo o mesmo livro, rs. Isso é muito curioso.

E eu também assumo a responsabilidade de indicar o livro e o autor principalmente. É de qualidade rara para os dias atuais

Belíssimo espaço!
bjus

Flavia disse...

Eu vi o filme no ano passado.
No começo achei estranho, fiquei com raiva dele... depois dela... depois sai do cinema boquiaberta com o filme maravilhoso!

Bjs!

Flavia disse...

É que filme e livro são coisas diferentes. O filme deve compactar a história sem perder o essencial e ainda de uma forma que agrade à maioria do público.

Eu sou ao mesmo tempo fácil e difícil de agradar. Gosto de fins reais e plausíveis. Odeio quem se cura do nada, quem acha que Romeu e Julieta deviam ter vivido. Não que eu goste de finais tristes, pelo contrário, quem não vibrou quando Richard Gere chegou num carro branco pra realizar o "sonho" da Julia Robert em "Uma linda mulher"?

Mas falando em "El Passado", o filme só teve o final justo e merecido. Aquele final que nem era pra ser final, se as personagens fossem menos complexas. Mas ninguém é assim. E ainda bem... senão não tinha tanto mistério a vida!

Bjs!

Vica disse...

Acabei de ler o livro, horrorizada. Tô até com medo de ver o filme agora.