terça-feira, 9 de junho de 2009

Carta a Daniel 4


Querido Daniel, como têm sido teus dias?
Os meus, up and down and all around. Normais, creio.
Aliás, não posso mais dizer que acho, ou que não tenho certeza. Ou eu sei, ou eu não sei. Assim.
Então como posso te explicar como têm sido meus dias?
Dia 31 de março foi o dia em que as personagens de A Long Way Down quiseram cometer suicídio. Digo quiseram, porque na realidade não tentaram, apenas quiseram.
Dia 31 de março, coincidentemente, foi o dia em que eu morri.
Essa pessoa que acordou no dia 1º de abril, dia dos bobos, quase como se realmente tivesse morrido, não é a mesma pessoa que apagou no dia 31. Tu sabes do que estou falando.
E os meus dias, desde então, têm sido baços, um tanto cinzentos. Como se eu visse tudo através de um vidro sujo. Às vezes há pequenos pedaços limpos, através dos quais consigo ver coisas coloridas e menos distorcidas, mas são pequenos, pequenos. E assim eu passo os dias.
Selecionando o que devo comer e o que não devo, tomando banho, ora amando, ora odiando meus cabelos, meu rosto, meu corpo, minhas unhas, meu ser.
Esse ser que eu não sei bem quem é. Que não é mais aquela pessoa de outrora. Num saudosismo infantil, quase piegas, eu penso que eu já fui alguém bem melhor. Alguém bem "legal". E agora... sou alguém, apenas isso.
Não que eu tenha passado a ter defeitos horríveis que antes não tivesse. Ou qualidades fantásticas. Ou algo que me distinga. Não, algo quebrou, virou pó, o vento levou, e estou tentando saber quem eu sou, no meio do que restou.
Me perguntaste: onde foi que morri?
Tu, eu realmente não sei.
Mas eu, ah, eu sei exatamente onde morri. Quando, onde, e a que horas. Não que isso ajude muito.
Daremos um jeito, penso, de ressuscitar. Viver de novo. Limpar os vidros sujos que nos impedem de ver o colorido do mundo.
Te proponho um trato: 90 dias. Aí nos vemos de novo.
Beijos e carinho,
C.

Um comentário:

Ana Cota disse...

Belo pedaço de prosa!

Beijinhos directamente de Portugal,
Mary